MAIS UMA FACE DO FREVO

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  • quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
  • por
  • Chris Galdino
  • in
  • Crédito das fotos: Luccas Maia


    O frevo é praticamente sinônimo de alegria, de uma euforia carnavalesca multicolorida. Despir essa vestimenta  virtuosa e glamourosa que o caracteriza não é tarefa fácil, principalmente para uma pessoa formada na ebuliação frenética deste ritmo tão pernumbucano como Fláira Ferro, passista de frevo desde os sete anos de idade. Em seu solo contemporâneo de estréia; que também é o primeiro trabalho da Untanto Cia.de Dança formada por ela e suas amigas Bella Maia e Camila Moraes; a bailarina parte do vocabulário que tanto domina, mas ousa inverter a lógica de costume.
    Sem os tantos artefatos que compõem sua configuração original, o frevo parece mais próximo, mais cotidiano. Os nomes dos passos fazem mais sentido quando dissecados na brincadeira de Fláira com tesoura, parafuso e martelo. Corpo e ferramenta parecem unos, um complementando o outro, um anunciando o movimento do outro. Figurino e cenário, ambos assinados por Renata de Fátima, oferecem um habitat diferente ao frevo, que prioriza tons neutros, emprestando até uma certa sobriedade, talvez para enfatizar ainda mais os detalhes da movimentação da intérprete e/ou distanciar do clima disperso carnavalesco. Isso fica evidente na cena em que uma grande saia rodada se transforma em uma espécie de "abajour lilás", chamando atenção exclusivamente para os movimentos dos pés e pernas de Fláira, que denunciam semelhanças e traçam aproximações entre os passos do frevo e do balé clássico, tão presentes no seu corpo.
    Apesar de estreante neste segmento específico e de ser ainda tão jovem, a bailarina fala, canta (a música "Templo do Tempo" de sua própria autoria), interpreta e dança com uma expressividade ímpar, demonstrando segurança e bastante propriedade no discurso coreográfico que apresenta. Definitivamente ela sabe o que está fazendo. Virando o frevo do avesso e se despindo dos próprios estereótipos, Fláira Ferro, consegue manter os traços virtuosos da passista e imprimir ao mesmo tempo uma poética contemporânea, que é sublime e forte ao mesmo tempo. No limite entre dança e acrobacia, a bailarina vai construindo uma brincadeira reflexiva que parece nos dizer para não nos conformarmos com o que está posto,  fugirmos dos clichês. E ela se dá como exemplo do terreno fértil que os estereótipos escondem. Em um dos mais belos momentos do trabalho, Fláira contracena com sua sombrinha lilás, como se se tratasse de um pax de deux romântico, uma simbiose perfeita, realçada pelo sax do maestro Spok, que faz uma partcipação especialíssima na trilha primorosa de Igor Bruno Nóbrega.
    Um vídeo finaliza o trabalho, mostrando relatos nas ruas do Recife, com pessoas falando sobre este ritmo tão nosso. A propósito: a pergunta título do espetáculo- "O frevo é teu?"- funciona como uma provocação em todas as cenas, uma questão que se desdobra em muitas outras como pode acontecer- e espero que aconteça,- com este solo inaugural de Fláira Ferro. Pelo menos foi essa sensação que me tomou ao assistir "O frevo é teu?"...Estava sendo apresentada a uma espécie de cardápio de possibilidades criativas, um menu degustação do frevo, com diversas chances de escolha. É verdade que ficamos com um gostinho de quero mais e que talvez uma inversão das cenas (deslocar o vídeo para o começo, por exemplo, até para justificar a presença da bailarina na platéia antes do início...e/ou deixar para o final o pax de deux de Fláira e sua sombrinha... ) pudesse aumentar o fascínio da obra. O desenvolvimento de algumas sequência-questões poderá fortalecer o tom reflexivo do discurso proposto, espero que em um breve futuro. Fiquei com muita vontade de ver os próximos estágios desta pesquisa da Untanto Cia. de Dança, que já começa com o pé direito sua carreira,contando com uma intérprete de excelência, e uma produção muito bem cuidada em todos os sentidos.
    Outras questões ficaram me rondando desde que vi "O frevo é teu?": Como esse ritmo secular ainda pode se renovar, se reiventar? Quantas faces o frevo ainda pode revelar? Talvez hajam- como diz Fláira no seu solo, citando seu mestre Nascimento do Passo- tantos frevos quantos são os pernambucanos. E se assim for, ainda temos muito o que esperar e encontrar no frevo.



    2 comentários:

    viviane disse...

    Os passos da estrela de Ferro nas belas palavras de Chris... So podia resultar em magia. Li o texto e deu vontade de assistir ao espetaculo! beijao nas 2!
    Viviane Mendes

    Chris Galdino disse...

    Verdade, Texto maravilhoso!!! Dá ,realmente vontade,ainda mais, de assistir o espetáculo. Se as fotos já davam, com um texto deste como release, é casa lotada na certa!! Parabéns! bjus, Cláudia Galdino

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