Navegando na Travessia do Grupo Grial

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  • segunda-feira, 18 de outubro de 2010
  • por
  • Chris Galdino
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  • Viajei... e confesso desde já que fiquei mareada, mas neste caso o enjôo não foi ruim, instalou em mim uma saudável embriaguez de memórias, de um passado tão presente sempre e que não parece ser só meu. Naveguei além-mar para re-conhecer um tecido de afetos tão próprio, habilmente costurado no vocabulário regional e universal, no entrelaçado de tradições e contemporaneidade do Grupo Grial. Da subjetividade de cada corpo, carregado de histórias e formação distintas, a coreógrafa Maria Paula Costa Rêgo conseguiu construir um “côro” uníssono sem tentar apagar as individualidades preciosas de cada intérprete (ainda bem!), como se se tratasse de um mesmo idioma, que mantém seus sotaques diferentes, mas fala a mesma língua.


    Embalados pelo doce e forte canto de Nice Teles (cantadeira popular de Condado, município da Zona da Mata Norte de Pernambuco), os bailarinos ampliados e duplicados em sombras tornam-se cenário em movimento nos painéis que compõem a arena criada pelo diretor de arte Dantas Suassuna, e realçado pela luz precisa e delicada de Luciana Raposo; antes de aparecerem em carne e osso para entrar nesta embarcação onde junto com o público navegam ao sabor dos ventos. Os traços dos grandes painéis nos lembram pinturas rupestres (e/ou também poderiam ser iconografia típica armorial) o que nos remete a um encontro com a ancestralidade, a particular-individual, e a coletiva; a nossa e a da própria dança.

    Miscigenação, mestiçagem, mistura, polissemias e poligamias: palavras (tão brasileiras, não é?) que se repetem, se tecem e se moldam em formas dançantes a cada cena do novo trabalho do Grupo Grial, “Travessia”. Imagens que se multiplicam, trazendo memórias às vezes desfocadas, às vezes até nítidas demais; às vezes nostalgia, às vezes ameaça de um banzo fatal. E quando notei, já me sentia navegadora dos longícuos séculos dos descobrimentos, para alguns minutosdepois, sofrer nos tumbeiros da escravidão...e haja travessia! Dentro da embarcação-arena-cenário fiz não uma, mas muitas travessias, enredada no mosaico multiétnico que formou o povo brasileiro. Das referências lusas mais evidentes aos toques árabes e ciganos, passando pela forte presença afroameríndia, a trilha de Publius Lentulus e Claudio Rabeca, parecem sair dos corpos dos bailarinos, tal é a perfeição do encaixe entre música e dança. A consultoria artística de Conrado Falbo, músico e pesquisador, e do ex-bailarino do grupo Eric Valença, devem ter colaborado bastante com esse resultado coerente e coeso. Uma união que não significa homogeneidade, pois o realce das diferenças que enfatiza o diálogo tradição-contemporaneidade é a base do trabalho desta companhia pernambucana, fundada há mais de 13 anos. Quando trazem à cena a "véia do bambu", figura do cavalo-marinho, ou dançam ´juntos um coco de roda, talvez evidenciem as matrizes populares nordestinas que alicerçam a pesquisa da companhia, mas a consolidação desta linguagem híbrida já conseguiu uma tal fusão entre os elementos populares e eruditos, que é impossível isolá-los. Então não faz muito sentido insistirmos neste debate dicotômico, assim como não vale a pena tentarmos enquadrar em uma categoria o trabalho do Grupo Grial, a dança por eles tecida tem singularidades inclassificáveis. O Grial tem uma alquimia peculiar e única, um jeito próprio que vem desenvolvedo de fazer novas combinações coreográficas, mas manter o trânsito tradição-contemporaneidade como eixo, experimentando novas possibilidades (inclusive de formato das apresentações) a cada espetáculo.
    Cada elemento da obra, incluindo aí cada artista, são multifuncionais: bailarinos e cantadeira são cenário também, cenários transformam-se em figurino (assinado por Andrea Monteiro); luzes que fazem figurinos dançar... Tudo é grande, desde a estrutura, ao gestual e a emoção transbordada. A sensação de cumplicidade e aproximação talvez venha da simplicidade da contação de histórias, mas também encontro elos de ligação possíveis com a poética e a movimentação de outro espetáculo do repertório do Grial: “Uma mulher vestida de sol- Romeu e Julieta”. Talvez os muitos momentos em que dançam casais, talvez o tema comum às histórias contadas, contadas e dançadas pelo elenco- o amor- tenham deixado em mim essa impressão de uma retomada, ou melhor dizendo, de uma reinvenção de si mesma que Maria Paula operou com maestria na sua “Travessia”, fazendo o grupo ser outro (aliás o elenco novo e muito bom é formado pelos intérpretes-criadores: Aldene Ferreira, Dayse Marques, Fábio Soares, Iara Campos, Iara Sales e Joab Jó) e reforçando, ao mesmo tempo, os marcos identitários do Grial.

    Travessia é a segunda parte de uma trilogia proposta pela companhia e chamada “Uma história, duas ou três”, mas muitas são as narrações presentes e as interpretações possíveis. Romances e pelejas tipicamente nordestinos, dores e amores que nos soam tão familiares são contados na dança do Grial, em desenhos coreográficos que exploram o espaço externo e interno, em entradas e saídas da arena que nos fazem dançar também, talvez isso justifique a minha confessa embriaguez, saborosa mareação poética.

    Tocam os sinos anunciando o fim da oceânica “Travessia” ou seria um sinal sonoro para despertar do transe viajantes mais desacostumados? Não sei. Terra à vista- pensei e quase gritei- e fomos nós quem fizemos a descoberta- viva! E olha, a terra é alegre, e parece bem produtiva. O espetáculo termina. E a festa parece estar só começando. Ainda mareada, sigo digerindo e celebrando o encantamento desta viagem na Nau milenar e futurista do Grupo Grial.


    Travesssia, 20h, no Mercado Eufrásio Barbosa, no Varadouro- Olinda-PE.
    Quinta-feira a segunda-feira- 21 a 25.10
    ENTRADA GRATUITA
    *Faz parte da programação do 15º Festival Internacional de Dança do Recife


    3 comentários:

    Alex Macedo disse...

    Maravilhado, atravessei como você.
    Percorri o caminho que liga o homem ao divino.
    Em mim baixou um misto de Homem, Exu e Oxalá.
    Mais uma vez Maria Paula com seu Grial consegue provar que não é necessário recorrer ás mazelas importadas, para construir uma dança que atravessa sem deixar rastros o caminho entre a tradição e a contemporaneidade.
    No Travessia tudo dança, tudo é velho e tudo é novo.
    Dançam o cenário, a música, o figurino, a platéia, a luz, a voz , os corpos e a alma.
    E o melhor de tudo é que, como vc sentiu, dançam num uníssono, numa sintonia que só se assemelha à mantras sagrados que nos levam ao transe.
    E foi num transe-trânsito que atravessei maravilhado, à bordo daquela nau cheia de signos, o caminho que nos leva à uma dança onde o corpo não só pensa, mas age em direção a uma nova dança. Uma dança tradiconal e verdadeiramente contemporânea.

    Alexandre Macedo

    Chris Galdino disse...

    É isso...e fui novamente navegar nesta Nau sábado passado, desta vez acompanhada dos meus aulunos da Faculdade Joaquim Nabuco- recife. Então, em breve, teremos desdobramentos desta experi~encia viva de Cultura Brasileira publicadas aqui no blog. Vamos continuar conversando e, principalmente, vivendo tais maravilhas. Bjs, obrigada pelo comentário

    Tiago Ferro disse...

    Nossa!! eu fiquei em êxtase. A primeira parte da trilogia "A barca" já tinha me deixado super feliz, embora aquele vento todo em frente a Torre Malkoff não tenha ajudado na evolução com os tecidos. "Travessia" me deixou mais que super feliz... Fascinado, é o mínimo que eu posso dizer da sensação que senti, ao ver um espetáculo tão contemporâneo e tão popular, tão sofisticado e tão simples, e com esse conceito de libertar dos corpos, tão atual. Cada um com sua individualidade e que riqueza de movimentos individuais... Sou suspeito pra falar, pois além de fã sou amigo de Dayse, ela tá um espetáculo mesmo e pronto kkkkk. Mas Maria Paula também mostra que está com sua arte em dia, não apenas na concepção como no bailar, adorei sua movimentação. Até Nice Teles, além de cantar se expressou com um movimento divinamente lindo, com uma fluidez de gestos suavemente incríveis. Bom, eu precisava muito desse momento, preciso vivenciar mais espetáculos como este para encontrar minha identidade nesse mundo contemporâneo. Depois de "A Barca" e "Travessia" o que virá para encerrar essa trilogia? A chegada? hehehe. Sei apenas que se continuar nessa crescente atingirei o Nirvana em breve. :) Parabéns Chris pela sensibilidade nas palavras. Beijo Grande.

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