Dimenti, dirisos, dimais...

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  • segunda-feira, 23 de agosto de 2010
  • por
  • Chris Galdino
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  • Gente, depois de um mês atribulado de viagens e mazelas, voltei. Segue a crítica extra que fiz sobre o trabalho do Dimenti (BA), ainda fruto da minha presença no Interação e Conectividade. Aguardo seu comentário. Seja bem vindo ao meu "processo"! bjs: Chris Galdino



    Risos! Mais risos! Quando o povo do Dimenti, grupo baiano habitante da fronteira dança-teatro, entra em cena é sempre assim. As gargalhadas fazem parte da trilha sonora, encaixam-se com perfeição nas músicas, textos e (raros) silêncios das obras. Já tive a oportunidade de juntar meu riso em vários dos seus trabalhos e é também na condição de fã que teço essas considerações. Mas não se engane, é só na comicidade que a estética da companhia se aproxima do traçado da diversão/entretenimento comum aos besteirois. Porque na organização singular destes artistas a forma não se sobrepõe ao conteúdo, ao contrário disso o caminho do humor abre fendas profundas e inevitáveis por onde as reflexões críticas entram e se instalam. A ironia do discurso extremamente político parece criar um jogo de espelhos. Talvez por isso tanto riso. Rimos descaradamente do nosso próprio ridículo ali refletido ou do ridículo do nosso próximo, que as convenções sociais nos impedem de expor abertamente. O riso funciona então como nossa válvula de escape dos absurdos sociais com os quais somos obrigados a conviver calados, na maioria das vezes, criando uma intimidade imediata entre artistas e público. E quanto mais coletiva a mazela exposta, mais descontroladas e cúmplices as gargalhadas. Desse jeito, o Dimenti alcança um alto grau de interatividade, que coloca todos em cena, derrubando a tal da quarta parede. Um vocabulário escrito com irônico e sarcástico humor, tendo a crítica como matéria-prima, faz a genuinidade do trabalho do grupo, que já se transformou em referência nacional.


    Uma cenografia organizadamente bagunçada e recheada de elementos, cores e texturas, também é recorrência na trajetória do Dimenti. Ressignificando ou multiplicando funcionalidades de cada objeto, eles fazem das aparentes sobreposições um reforço do discurso. Vendo o Chuá (2004), por exemplo, constatamos a fragilidade da bailarina-cisne-ícone do belo, que precisa de um aparelho de inalação hospitalar para se manter viva (Quem quer ser como ela? Acho que ninguém). Anunciado como espetáculo para crianças, Chuá traz uma sátira ao balé de repertório O lago dos cisnes como fio condutor, mas aqui a querência dos contos de fada comuns ao gênero se inverte, ou se dissolve. Crianças e adultos não se identificam com os mocinhos da história como seria suposto; descobrem valores bem mais atraentes em outras aves, incluindo a fauna híbrida que o Dimenti incorpora. E não para por aí. Eles adicionam bastante realismo à receita, assumindo seus nomes verdadeiros e acrescentando características particulares dos integrantes aos personagens.

    Aproveitando o caráter infantil, o Dimenti questiona o repetitivo modelo de espetáculos ditos para a infância, que insistem na fórmula didática das fábulas, com suas morais da história, e/ou subestimam a inteligência das crianças, em um tratamento demasiadamente ingênuo. Se as crianças de hoje não são mais como as de antigamente (se é que algum dia elas foram), porque os espetáculos continuam insistindo em apresentar “a moral da história”? A moral de Chuá é não ter moral pra contar. Chuá é um mergulho em outra direção, em outra dimensão, que extrapola os limites da palavra e das lições de vida geralmente impressas nas produções para a infância. O aprendizado se dá de outra forma, é de natureza sensorial, e por isso é assunto que não se ensina, se vivencia. No caso de Chuá, o verbo “fazer” parece mais adequado do que o “ver”. A gente quer abrir as portas da gaiola, correr atrás do avestruz, quer ser filhote de beija-flor com urubu, desmontar e remontar o quebra-cabeças, quer salvar o cisne ou se afogar com ele na piscina de bolas...são outros os quereres que Chuá inaugura em nós. Contemporaneizando e desmantelando o enredo do clássico Lago dos Cisnes, o Dimenti questiona em todos os sentidos os padrões de beleza e estética únicos, na arte e na vida, e também diz não às identidades fixas e pré-estabelecidas, aos rótulos socioculturais.

    Se rir do próprio ridículo e contestar identidades estereotipadas em nome da liberdade de criação e da expressão crítica/política é a linha que perpassa todos os trabalhos do Dimenti, a performance mais recente do grupo vai fundo nessa missão. Um Dente Chamado Bico (2010) é uma instalação coreográfica que nasce da colaboração com Sheila Ribeiro/dona orpheline (SP) para desavessar os clichês de baianidade, usando o que há de mais baiano na desestabilização das imagens representativas da Bahia cartão-postal. Ao mesmo tempo que aprofunda a pesquisa, o Dimenti se afasta do perfil que caracteriza a quase totalidade do seu repertório, e talvez a parceria com Sheila Ribeiro tenha sido decisiva para elaboração desse novo formato. Sem textos ou narrativas convencionais, cabe ao corpo e a própria organização do espaço cênico, incluindo aí as peças gráficas de divulgação e até os comes e bebes servidos durante o “evento”, serem o discurso da obra. Feito de meios, sem início ou final identificáveis, Um Dente Chamado Bico é um processo coletivo de desconstrução contínua e crescente, que envolve criadores e público no mesmo universo.

    “O YEMANJÁ PRIVILEGE é um empreendimento de padrão diferenciado pioneiro e de qualidade, que oferece facilidades e benefícios a você e ao seu sonho. O YEMANJÁ PRIVILEGE dispõe de parcerias exclusivas que dão descontos em diversos tipos de estabelecimentos, dicas de decoração, saúde e programas culturais, promoções, convite para eventos PRIVILEGE e tudo o mais que for possível para manter esse sonho em perfeita harmonia”- anuncia o panfleto de divulgação de uma espécie de condomínio de luxo baiano, cujo o evento de lançamento é a própria instalação coreográfica do Dimenti. “Veja quantas vantagens temos em preservar nossa identidade. Temos que salvaguardar os nossos ícones culturais e nos proteger de interferências estrangeiras e outras intromissões, nem que para isso seja preciso o isolamento. Porque é um privilégio enorme ser baiano autêntico, ser cartão-postal. Para que, então, questionar essa verdade absoluta? Para que mudar o que está dando tão certo? Só assim temos segurança e garantia de harmonia, portanto não tente ser diferente”- é o possível discurso não dito que o Dimenti vem contrariar nesta performance.

    Um Dente Chamado Bico entra “pelos sete buracos da nossa cabeça” (para citar Caetano Veloso, outro ilustre baiano) simultaneamente, com ousadia e sutileza. Pensando ser o fino da bossa-nova ouvimos “a dança da manivela” e outros sucessos do axé music no mais sofisticado estilo voz-violão, enquanto saboreamos salgadinho de bacon com molho rosé e guaraná, como se fosse champanhe e caviar. E continuamos degustando o imaginário baiano, aceitando-o com naturalidade mesmo quando quase somos atropelados pela violência da multidão carnavalesca que Fábio Osório Monteiro e Márcio Nonato põem em cena. Vídeos, peças gráficas e discursos inflamados de supostos visitantes convidados nos apresentam as muitas vantagens do YEMANJÁ PRIVILEGE, com direito a androginia de uma barbada pequena sereia cantando as maravilhas do paraíso humano por ela desejado. São tantas camadas e tão bem camufladas, que por pouco não caímos na tentação de proclamar a nossa “baianidade nagô” e dançar junto com o diretor Jorge Alencar e os demais intérpretes do grupo, a convicção de que nessa cidade todo mundo é d’Oxum. Partindo do seu próprio exemplo, do seu ridículo original, o Dimenti amplia a potência e o alcance do seu discurso, escancarando a crítica aos moldes pré-fabricados de identidades e questionando a suposta liberdade da arte contemporânea, pleiteando o direito de não se enquadrar em modelos. A ausência de textos já referida e o tempo esgarçado das intervenções- outra novidade no trabalho do Dimenti- deixam ver um padrão de movimento se inscrevendo, marcado pelo exagero de posturas caricaturais e a repetição acelerada de jeitos de andar e outros gestos cotidianos. O que indica que a tão particular estética deste grupo também está construindo uma dramaturgia corporal consistente.

    Imprimindo humor na sua escrita como sempre, o Dimenti arrisca outras formas, talvez menos risíveis, mas não menos interessantes, mostrando que é possível se reinventar, sem se desviar das questões centrais que orientam a pesquisa do grupo desde sua criação há mais de dez anos. O Dimenti aprendeu a ser muitos sendo o mesmo, e equacionando o peso das críticas vorazes com a leveza da comicidade abriu uma trilha ainda pouca explorada na dança contemporânea, mas que já mostrou que pode render muitos risos, reflexões, discussões, estéticas, etc. Por isso é que digo que o Dimenti só se parece com ele mesmo, apesar de se reinventar e desdobrar suas ações a cada nova proposta. Vê-los, ou melhor dizendo, vivê-los em cena, é sempre uma surpresa e um reencontro.


    2 comentários:

    . disse...

    É fato...

    Dimenti: Surpresa e reencontro.

    Admiro muito o trabalho dos meninos e o seu também Chris!!

    Uma crítica onde percebo que você procurou entender a proposta de trabalho do grupo e por mais fâ que seja, vi uma crítica desprendida de seus gostos, delicada e coerente!

    Parabéns ao grupo Dimenti e Parabéns Chris!!

    Juan Guimarães

    Chris Galdino disse...

    Obrigada Juanito...essa é mesmo minha busca enquanto "crítica em dança". Divulga esse meu bloguinho, que é espaço para partilha e aprofundamento mesmo.
    Quando será que poderei ver teu solo, hein? rsrsrs....Prometo escrever assim que assistir. bjs

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